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Leandro Nigre

LEANDRO NIGRE

Pai do Joões, em seu plural consagrado, João Guilherme e João Rafael, esposo da Dayane, jornalista, palestrante, articulista sobre paternidade, especialista em Mídias Digitais, editor-chefe de jornal impresso, em Presidente Prudente.

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Uma nova chance no pé de lata

Relato é só um pretexto para refletirmos sobre nossos erros na tentativa de acertar e que os filhos nem se dão conta que erramos

03 de Setembro de 2018
6 comentários

Esta poderia ter sido mais uma Semana do Folclore no colégio do meu filho João Guilherme, mas não foi. Ao menos para mim. Era agosto de 2017 quando um recado no caderno pedia a confecção de um pé de lata, daqueles com duas latinhas e um barbante que eu mesmo fazia na infância. Achei o máximo e pensei na chance de mostrar ao meu pequeno uma brincadeira de quando eu era criança.

Arte: Diego Salvador/Prudente Empresas

Separei duas latas de conservas, fiz um furo no meio, amarrei os barbantes e enviei à escola. Ele foi todo feliz e eu também fiquei... até ver na rede de compartilhamento as fotos das crianças usufruindo seus pés de lata. Ele estava encostado na parede da quadra esportiva, com duas minúsculas latinhas, descalço, com a marca das conservas à mostra, um barbante fino entre os dedos dos pés enquanto as demais crianças exibiam latas de tamanho maior, customizadas e andavam por todo pátio. 

Mesmo que, naquela imagem, ele ainda trouxesse o sorriso no rosto, sem muita dramatização, eu fui transportado mentalmente para a escola, o imaginei inerte e inferiorizado diante das demais crianças que se divertiam em suas grandes latas coloridas. Coisas de pai e suas reações súbitas de autossabotagem, culpa e superproteção, que lentamente o retornam ao status de plena consciência de que todo investimento naquele projeto cultural tinha, acima de tudo, o seu amor. Talvez tenha faltado a mim a atenção a um trecho do bilhete que dizia “busque inspirações criativas na internet”, enquanto era maior o meu desejo de mostrar que eu sabia fazer sem qualquer consulta.

Quando retornou da escola, fiquei à espera que me contasse sobre aquela experiência, na esperança de que tudo aquilo que imaginei fosse pura fantasia, mas ele demonstrava felicidade e foi breve no relato:

 - Foi legal, pai. Só um pouco difícil de andar, doeu meu pé, mas eu andei.

Não o instiguei a falar mais. Bastava. E, hoje, o relato do pé de lata é só um pretexto para refletirmos sobre nossos erros na tentativa de acertar. E que, em boa parte, os filhos nem se dão conta que erramos. Se fizermos um resgate na memória, podemos identificar falhas e inaptidões que se transformaram em ações positivas com o passar dos anos, mas junto delas muitos acertos, investimento afetivo e doação.

Nesta semana, um novo bilhete anexado ao caderno de recados tinha o mesmo pedido de produção. Não titubeei. Usei duas latas de leite em pó, decorei, fiz uma amarração individualizada nas unidades e, desta vez, acompanhado da mesma alegria do ano passado, ele voltou da escola com uma frase que me conduziu ao êxtase:

- Pai, você acredita que todo mundo queria andar no meu pé de lata de tão legal que era?

Gritei por dentro! Comemorei! Em 2017, minha crença no saber me cegou e me impulsionou a confeccionar o pé de lata da forma que eu sabia enquanto o bilhete me ofertava a chance de fazer diferente. E, assim, tenho feito diariamente no processo de criação e educação dos meus meninos. Me sinto, diariamente, mais atento a esta arte sem manual de instrução, me construo, edifico e também me desprendo de conceitos e estereótipos que fizeram parte da minha formação, mas que contemporaneamente são readaptáveis.

O conhecimento em todos os campos da vida humana é beneficiado com estudos e, hoje, temos um novo modelo patriarcal, que possibilita conexões entre pais e filhos mais modernas, criativas e saudáveis. Estamos vencendo o ciclo do machismo, nos libertando da clausura de sentimentos, não poupamos no falar de amor e tampouco na oferta de toque físico, dos beijos, abraços... O olhar, o diálogo, o afeto, a compreensão das diferenças, a disciplina, o direcionamento dos limites e a comunicação não violenta são novas oportunidades. Longe do autoritarismo e muito menos do permissivíssimo, elas estão à disposição de todos nós para que sejamos, continuadamente, mais participativos!

* Os textos só podem ser reproduzidos mediante autorização do autor e desde que citada a fonte 

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MAIS 6 COMENTÁRIOS

Stephany

10 de Setembro de 2018

Oi Pai Educa! Muito bom seu post, fez eu relembra meus tempos de crianca.

Teofilo Tostes Daniel

09 de Setembro de 2018

Que relato bonito! Mostra bem a complexidade que é a paternidade. O quanto os pais têm desafios diários -- e diárias aprendizagens -- no processo de desenvolvimento de seus filhos. Achei a história também bastante curiosa, pois acho que quando eu era criança, eu nunca brinquei com esse tipo de coisa -- tanto que no início do seu relato, achei que era aquela espécie de comunicador conduzido por barbante, com copos pregados nas pontas -- e eu pensei que latas seria uma tecnologia mais avançada! rsrs Amei o relato! Ensaio Aberto | Teofilo Tostes

Adriana Cardoso

09 de Setembro de 2018

Olá!! Como mãe é impossível não se colocar exatamente na sua posição. A gente sempre se culpa quando algo não dá certo. É como se a gente tivesse subido à um patamar onde não se admite falha, pois outras vidas dependem da gente. Que bom que seu filho curtiu o brinquedo mesmo que doesse os pés, pois foi você quem fez e é isso que importava para ele e melhor ainda que você acabou se desafiando a fazer um melhor para que ele fosse mais feliz. Bjs https://almde50tons.wordpress.com/

Diego França

06 de Setembro de 2018

Que coisa linda seu texto! E mais lindo ainda é sua consciência em relação às mudanças e maneira de se comunicar e se relacionar com seu filho. Está de parabéns! Por mais textos assim e que mais pessoas possam ler. Seu filho é um lido e desejo que cresça um rapaz muito lindo também de valores, respeito ao próximo e aos próprios pais. Um abraço, Diego França ~Blog Vida & Letras www.vidaeletras.com.br

carla martins

06 de Setembro de 2018

Adorei o seu texto , muito emocionante , e prova que você é um excelente pai , atento ao filho . Parabéns !!

Leonardo

04 de Setembro de 2018

Que incrível! Texto muito nostálgico e emocionante.

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