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Leandro Nigre

LEANDRO NIGRE

Pai do Joões, em seu plural consagrado, João Guilherme e João Rafael, esposo da Dayane, jornalista, palestrante, articulista sobre paternidade, especialista em Mídias Digitais, editor-chefe de jornal impresso, em Presidente Prudente.

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Função paterna, drogas e juventude

Segundo psiquiatra, pai deve permanecer firme na recuperação do filho e não recuar, como fazem muitos

06 de Abril de 2017
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É inegável que o uso de drogas e de álcool seja uma das preocupações dos familiares de crianças e adolescentes. Em palestras voltadas para pais e mães, percebi que as principais dúvidas chegavam na mesma questão. Em como evitar que os filhos usem drogas. Não há cartilha de orientação em como fazer isto, mas é possível responder a pergunta utilizando métodos semelhantes usados na reabilitação de pacientes. O que funciona em todos os casos é uma dinâmica chamada na teoria sistêmica familiar da psicoterapia de função paterna. A constatação tem como base a eficiência dos tratamentos realizados em dependentes químicos, viciados e compulsivos por mais de trinta anos, após testar variadas hipóteses, das mais superficiais às mais profundas.

Foto: Divulgação

As relações familiares mudam quando uma pessoa se transforma numa dependente química e, portanto, a família terá dificuldades em lidar com a situação. A função paterna é um caminho porque a reabilitação do paciente é amplamente favorecida quando a medida está presente no tratamento, sendo fundamental para impedir recaídas. Onde a proposta tem sucesso, evita-se a volta do consumo de drogas no primeiro ano de reabilitação. Quando não praticada, a recaída torna-se mais provável. Cerca de 80% dessas situações ocorrem nos seis primeiros meses após a reabilitação. O restante em até cinco anos e há aqueles que retornam ao mundo das drogas depois de dez anos, como se nunca tivessem passado por um tratamento.

O método é, por si, uma postura familiar em tomar todas as providências cabíveis para que a pessoa tenha condições de se reabilitar. O que acontece é um suceder emocional em cinco estágios, como pode ocorrer com todas as pessoas, por exemplo, em situação de luto – negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Ressalta-se que qualquer pessoa pode assumir o papel da função paterna. Pode ser o pai, a mãe, irmão, outro parente, um professor ou até mesmo os filhos.

Quando o método inicia, o paciente nega que a situação ocorra ou não admite que a gravidade seja tão significante quanto realmente é. A fase da negação. O dependente químico simplesmente ignora aquele que exerce a função paterna. O segundo momento vem a partir daí. Ele passa por uma fase emocional em que se revolta contra a postura familiar adotada em relação ao problema e busca por motivos para minar o processo. Se volta contra os limites impostos que demandam novo comportamento do paciente.

Quem exerce a função paterna deve permanecer firme nesta fase e não recuar, como fazem muitos pais. Mas manter a postura não significa extrapolar barreiras e “partir para a briga” porque se perde, além da razão, a própria autoridade diante do filho. Superado o estágio, vem a negociação. O paciente tenta negociar aquilo que não é dado a ele. Nesse processo, poderá usar de todos os recursos para chegar no objetivo, até mesmo usar outras pessoas da família como escudo. Mais uma vez a função paterna deve ser reforçada, deixando claro que não há espaços para a negociação.

Com a negativa, chega-se ao quarto estágio, a depressão. Ao constatar a tristeza dos filhos, muitos pais voltam uma casa e permitem a negociação. Isto não pode acontecer porque a função paternaterminará quando o pai ou a mãe compreender que a fase da depressão é imprescindível para prevenir e tratar a dependência química. A criança e o adolescente precisa entender que irá perder, chorar, não ganhar de volta, mas estará vivo. E, ao perceber que continua vivo, aceita o limite proposto e a mudança finalmente se instala. A fase da aceitação.

A verdade é que a autoridade na função paterna não pode ser isolada. Não existe a possibilidade de ser respeitado pelo paciente  se não houver outro ingrediente que acompanhe o limite proposto. É necessário que a pessoa saiba como tudo é feito por amor. De modo contrário, o paciente, ou o filho, poderá pensar que as limitações dispostas não passam de facilidades para contornar dificuldades ou, então, acreditar que são meras demonstrações de poder e superioridade. Uma pessoa se reabilita, ou evita o uso de drogas quando entende que a vida é melhor sem substâncias químicas. E isto não tem que estar no mundo das ideias, tem que estar na prática. A felicidade, que se tanto busca, só ocorre quando se leva em consideração as pessoas amadas, mesmo ante escolhas individuais.

Cirilo Tissot, psiquiatra especialista em dependência química e diretor da Clínica Greenwood

 

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