compartilhando a
paternidade ativa
Pai do João Guilherme, do João Rafael e da Maria Vitória, esposo da Dayane, jornalista, palestrante, articulista sobre paternidade e jornalismo, especialista em Mídias Digitais.
Dor de barriga antes de uma prova, dificuldade para dormir, falta de apetite, irritação sem motivo aparente, idas frequentes ao banheiro ou o hábito de roer unhas. Durante muito tempo, esses sinais foram tratados como algo passageiro. Hoje, já se sabe que podem ser manifestações claras de ansiedade infantil.
Foto: Divulgação/Freepik
Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo relatório do Unicef, 1 em cada 7 crianças e adolescentes vive com algum transtorno mental diagnosticado, sendo ansiedade e depressão responsáveis por cerca de 40% dos casos. Após a pandemia, o cenário se intensificou. Um estudo publicado no JAMA Pediatrics apontou taxas de ansiedade chegando a 20% em crianças de países de alta renda.
Para Mariana Ruske, pedagoga e fundadora da Senses Montessori School, o ponto mais preocupante é que os impactos vão além do comportamento. “A gente não está falando de uma fase difícil. O estresse crônico na infância pode alterar a estrutura do cérebro em formação. Sem suporte adequado, a criança passa a se organizar emocionalmente a partir do medo”, explica.
Pesquisas do Harvard Center on the Developing Child mostram que esse estresse prolongado afeta regiões como o hipocampo e a amígdala, ligadas à memória e à regulação emocional. Ou seja, não se trata apenas de um momento delicado, mas de algo que pode influenciar diretamente o desenvolvimento.
Na prática, o que mais protege a criança não é uma técnica isolada, mas o ambiente ao redor dela. “O que regula uma criança ansiosa é o adulto regulado ao lado dela. Não adianta pedir calma se o adulto também está no limite. A criança aprende no espelho emocional”, afirma Mariana.
Esse conceito, conhecido como corregulação, mostra que o cérebro infantil responde diretamente ao estado emocional dos adultos de referência.
Algumas atitudes simples fazem diferença no dia a dia. A primeira é validar o que a criança sente.“Quando o adulto nomeia a emoção, dizendo ‘eu vejo que você está com medo’, ele não reforça a ansiedade. Ele cria segurança. A criança se sente compreendida e não sozinha naquele sentimento”, explica.
Outro ponto importante é a previsibilidade da rotina. Para o cérebro ansioso, saber o que vem a seguir reduz a sensação de ameaça. “A criança precisa de ordem. Isso não significa rigidez, mas uma rotina minimamente previsível. E aqui entra um erro comum: agendas cheias demais. Criança não precisa de rotina de executivo”, diz.
Segundo ela, o tempo livre tem um papel essencial no desenvolvimento emocional. “O ócio não é perda de tempo. É nesse espaço que a criança processa o que viveu, descansa o cérebro e cria. Tirar isso dela é tirar uma ferramenta importante de regulação.”
Por fim, há um ponto que costuma gerar desconforto em muitos pais: permitir que a criança enfrente desafios. “Resolver tudo para a criança pode parecer cuidado, mas enfraquece. Quando ela não vivencia o desconforto, não aprende que é capaz de lidar com ele. Aos poucos, passa a acreditar que não dá conta”, afirma.
Esse processo impacta diretamente a autoestima e a confiança ao longo do desenvolvimento. Aprender a errar, segundo a especialista, é uma das bases mais importantes da educação.
A integração entre escola e família também é fundamental nesse cenário. E, quando os sinais são frequentes ou intensos, buscar ajuda especializada faz toda a diferença. “Pedir ajuda não é exagero, é cuidado. Quanto antes a criança for acolhida, maiores são as chances de um desenvolvimento emocional mais saudável”, destaca Mariana.
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